Minha última ação foi manter à direita pra enfrentar as ondas maiores, já que no dia anterior eu fui pelo meio do rio. Só me lembro de ter descido o primeiro degrau e ficar de frente pra primeira onda, que parecia maior ainda do que ontem. Pensei novamente: Não vai dar! Agora vou virar!
E virei. Que sensação de impotência! Água batendo na cabeça, lutando em vão pra me manter fora d`água, mesmo em pé, quando submergia, meus pés não tocavam o fundo, eu tentava puxar a boia pra perto de mim pelo strap, esta virava e caia na minha cabeça, eu estava bebendo água pra diabo quando eu me dei conta que eu ali era apenas um pé de meia numa máquina de lavar.
Quando cheguei nesse ponto, os dois me disseram que a próxima escalada eu guiaria, pois era o meu estilo! Aceitei prontamente, mas desconfiando que estilo seria esse… Dois grampos e uma curva depois, descobri que só poderia ser o estilo de se fuder, porque eu estava numa rampa de aderência bem inclinada com somente um entalamento de mão à esquerda e uma pedra formando uma espécie de canaleta onde eu empurrava minhas costas contra para não escorregar. Abaixo de mim somente o vazio. A mochila atrapalhava muito com as botas volumosas dentro e, em alguns pontos, não era possível entalar a mão esquerda. Começou a passar pela minha cabeça desistir, senti escorregar um pouco, blasfemei pela lama do diedro inicial na minha sapatilha, o grampo que era longe, tentei tirar um friend, me preparei para uma queda linda de uns dez metros, pêndulos, ficar pendurado no vazio…
Às onze, despertamos num susto pra logo após tomar outro susto: o grupo de SP não estava lá. Comecei a me preocupar e me lembrei de uma chamada não atendida no meu celular de Bob que eu não consegui retornar. Teriam eles partido no dia anterior? Estariam apenas atrasados? Aguardava enquanto tentava ligar para os celulares de Bob e Luizão – caso furasse lá em Mauá, eu tinha a idéia de subir com o pessoal que ia pra Marins – Itaguaré. O tempo passava, almoçamos um prato feito num pequeno estabelecimento lá perto e decidi encarar aquela travessia assim mesmo, somente com a Bia. Saí procurando informações com os moradores do local.
A Bia, entre outras coisas, nunca tinha acampado, andado de caiaque e no domingo de carnaval eu a enganei dizendo que iríamos andar nos canais e mangues de Barra de Guaratiba e acabamos chegando na Ilha Grande no fim da tarde de segunda-feira!
