Nascer do Sol no Pico da Bandeira

Pico da Bandeira

Rastreando o caminho e quase que farejando a trilha, depois de nos perdermos um pouco, chegamos no fundo do vale e tomamos a direção norte para tentar encontrar a trilha de volta. Novamente caminhávamos por gramíneas, tentando seguir uma trilha-fantasma, ou um tênue sinal de que aquele chão já fora pisado um dia. Brinquei novamente dizendo que a luzinha do perrengue já tinha começado a piscar e a escuridão chegou acabando com qualquer esperança de nos mantermos em uma trilha.

      Luizão marcou o Pico da Bandeira para o feriadão e eu me sentia quase que na obrigação de subir o 3º pico mais alto do Brasil. Já ouvira que era relativamente fácil chegar ao cume, talvez por isso demoramos algum tempo pra visitar o Parque Nacional do Caparaó. A distância também foi barra, nove horas de viagem indo pelo Espírito Santo para aproveitar os postos de gás da estrada.
Chegamos lá por volta de seis horas da tarde de domingo, preenchemos fichas, pagamos entradas e pernoites e recebemos instruções de um guarda na grande e organizada portaria do parque. Subimos uma íngreme estrada, ora saindo para empurrar o carro que derrapava na poeira, até a primeira área de acampamento, chamada Tronqueira. Ali nos preparamos e iniciamos a trilha para a segunda área de acampamento por volta de oito horas da noite. O caminho é muito fácil, são quatro quilômetros e meio de subida em caminhos bem largos e as vezes muito erodidos e com setas indicando o caminho pintadas com tinta amarela refletiva nas pedras. Mesmo pra uma subida noturna fica muito fácil e meio monótona. Chegamos no acampamento chamado Terreirão uma hora e meia depois, levávamos as mochilas com barracas mais todo o equipamento mas resolvemos dormir dentro de um abrigo construído com pedras e chão de madeira que estava vazio. Imaginei que talvez por causa de moradores indesejáveis tal qual em uma experiência minha na Chapada Diamantina…
Abrigo no Terreirão - Foto de Luizão

Na área gramada em frente havia algumas poucas barracas e mais adiante uma casa de alvenaria que imaginei ser outro abrigo, esse talvez pago.
Começamos a fazer comida e Luizão e Xanda armaram a barraca dentro do abrigo, temendo ratos ou aranhas… Enquanto eu comia, Luizão desmaiou de sono, pois acordamos as seis da manhã e Xanda, que já havia comido, foi pra dentro da barraca dormir. Depois de algum tempo, chegou um grupo de seis a dez pessoas que se abrigaram do frio no abrigo também. Eu que no início pensava ter a casa só para nós, agora procurava não fazer muito barulho enquanto raspava com o garfo na pequena panela os últimos fios do Miojo para não incomodar alguém que pudesse estar dormindo no silêncio da montanha. Arrumei minhas tralhas ao meu redor, tentei acordar o Luizão que dormia pesadamente com a cabeça no meu isolante térmico. Depois de muito insistir pra que ele fosse dormir na barraca, cedi o isolante para ele, pois ele tinha molhado o seu saco de dormir no início da trilha, quando o seu camel bag furou. Mas foi preciso empurrá-lo pra cima do isolante e pisando na sua mão sem querer, o fiz acordar gemendo e esfregando os dedos.
Me enfiei no saco de dormir, jogando as pernas em cima de Luizão para esquentá-lo. Eu esperava que o frio o acordasse e o fizesse entrar na barraca, mas já estava cochilando quando me pareceu uma multidão entrando abrigo adentro. Pessoas se enfiavam em todos os cantinhos e espaços livres, um cara pegou nossas mochilas e jogou para um canto, o que me deixou meio revoltado. Achei melhor evitar confusão, mas a toda hora luzes de lanternas apontavam para minha cara, pessoas falavam em voz alta e a certo ponto pediram para Xanda desmontar a barraca para o povo acomodar-se melhor. Juro que achei que Xanda fosse dizer não, conhecendo-a bem… Eu que já estava me irritando com a situação, quase me manifestei pra que ela continuasse ali. Depois que todos já tinham se acomodados achei que fosse ficar mais tranquilo, mas as conversas agora eram faladas em um tom de voz mais alto, homens, mulheres e umas crianças irritantes falavam, gritavam e gargalhavam dentro daquela cabana de três metros de largura e nove de comprimento onde deviam estar umas 30 pessoas agora e talvez metade delas querendo descansar. O povo costuma começar a caminhada para o cume do Pico da Bandeira às duas da manhã, para percorrer os outros quatro quilômetros e meio em duas ou três horas a tempo de assistir o nascer do sol. Girava em torno de meia noite quando perdi as esperanças de que fossem dormir e me dirigi a todos em voz alta:
– Vocês poderiam fazer silêncio, pois dirigi sete horas pra estar aqui?
Foi engraçado pois imediatamente todos se calaram e só me restou, alguns instantes depois, agradecer:
– Obrigado!.
Após isto alguém fez uma piadinha em voz baixa e mais um cara argumentou:
-Isto aqui é uma casa de todos, vai sempre haver algum barulho de alguém entrando, abrindo porta, falando…
Eu poderia discutir, dizer que se a casa era de todos, eles não poderiam agir como se fossem deles, etc, mas pra evitar mais barulho e confusão preferi finalizar o diálogo:
– O mínimo de silêncio que puderem fazer já ajuda…
Depois disso os ânimos se acalmaram um pouco, as pessoas procuraram por um tempo não falar muito alto, mas o falatório continuava e foi muito difícil dormir. Acho que quando dormi, já estava na hora de acordar, ouvi o celular despertando lá no fundo e Luizão me sacudiu: eram 3 da manhã!
Novamente a cabana estava vazia! Parecia que eu somente tinha tido um pesadelo… Rapidamente nos arrumamos e as quatro estávamos caminhando rumo ao cume. A subida foi tranquila, novamente sinalizada como a primeira parte. Mais uma hora e quarenta minutos estávamos no cume enquanto o dia começava a clarear e o frio ainda se fazia presente e mais forte por causa do vento que soprava. Tiramos muitas fotos do belo visual e do sol que começava a aparecer como uma pequena chama incendiando um tapete infinito de nuvens brancas. Mas não tardou para o sono e o cansaço começar a nos pegar. Entre um cochilo e outro íamos tirando os casacos e no fim já ia dar meio-dia e dormíamos sem camisas e sem sapatos e meias. Xanda já estava até de biquíni.

Planejamos subir o Pico do Cristal, o sexto pico mais alto do Brasil, que fica próximo ao Pico da Bandeira, ainda naquele dia, então nos arrumamos e partimos. Seguindo algumas informações, depois de uma curto trecho descendo a trilha do Bandeira, pegamos uma bifurcação na direção da montanha.
Subindo e descendo morros e chegamos na face leste do Pico do Cristal. Não demorou muito pra subida virar uma escalaminhada com muitas pedras soltas no caminho e subíamos com as pesadas e volumosas mochilas, estudando bem o caminho e tomando muito cuidado, pois apesar de fácil, qualquer escorregão naquela escaladinha nos faria cair algumas dezenas de metros ou mais… Chegamos no topo por volta de duas da tarde e não demorou pra voltarmos a tirar uns cochilos. Fizemos um miojo e começamos a descida pelo lado oposto da montanha, que era menos ígreme, uma espécie de rampa. Tinha alguns tótens indicando o caminho também e fomos despreocupados, sobravam duas horas de luz ainda. Na descida da montanha vimos os cristais brancos que dão nome ao pico e fomos agraciados com a presença de um elegante tamanduá que pra nossa sorte estava lá muito tranquilo e foi filmado e fotografado. TamanduáEu acompanhava nossa direção numa carta topográfica muito mal impressa mais uma bússola. A descida não terminava e agora faltava somente uma hora pra noite cair e ainda tínhamos que achar a trilha no fundo do vale! Brinquei que o ponteirinho da aventura começava a subir…
Rastreando o caminho e quase que farejando a trilha, depois de nos perdermos um pouco, chegamos no fundo do vale e tomamos a direção norte para tentar encontrar a trilha de volta. Novamente caminhávamos por gramíneas, tentando seguir uma trilha-fantasma, ou um tênue sinal de que aquele chão já fora pisado um dia. Brinquei novamente dizendo que a luzinha do perrengue já tinha começado a piscar e a escuridão chegou acabando com qualquer esperança de nos mantermos em uma trilha. Tínhamos algumas opções, pernoitar no vale, armando o acampamento próximo do Rio Caparaó, subir um morro a nossa frente, cuja direção nos faria cruzar com a trilha que liga o segundo acampamento com o primeiro ou subir por um tipo de vale à direita que ia mais na direção do segundo acampamento ou mais para o lado do Pico da Bandeira. A última opção parecia mais complexa, pois andar num vale próximo a um rio fora da trilha seria muito difícil, pois normalmente a vegetação é mais densa nessas áreas, a distância desse caminho era maior e estaríamos pegando uma direção que quase voltava, ante a isso decidimos tentar subir o morro da frente. No escuro não conseguíamos ver a vegetação pra decidir o melhor caminho e no início foi fácil, mas a medida que subíamos, os bambuzinhos iam fechando a passagem completamente. Em alguns momentos acho que eu, que ia na frente abrindo o caminho, percorria um metro por minuto, brigando com o mato, puxando os pés que eram abraçados por cipós, tomando tombos, me desvencilhando de bambus que se prendiam na mochila e envolviam meu tronco. Com o cansaço, aqueles bambuzinhos aglomerados pareciam cabos de aço me amarrando, a lanterna só iluminava até uns dois metros de distância ou menos, por causa da do mato fechado, aos poucos fomos tomando a direção da direita e por fim desistimos de subir o morro e fomos fazendo a volta. Xanda mostrava sinais de desgaste e stress e reclamava de fome. Vamos ficando meio relaxados à medida que nos acostumamos com as aventuras e nesta viagem não fizemos questão de fazer compras. Eu levava somente o que sobrou de comida da Chapada e Luizão, os clássicos miojos e mais alguma pouca comida! Antevendo a possibilidade de passar a noite ali, Xanda reclamava que não aguentava mais comer miojo e que o planejado era voltar naquela noite, acho que ela estava irritada pois Luizão prometera um jantar numa churrascaria e uma pernoite numa pousada!
– Vocês ficam se metendo a fazer o que não sabem! – disse se referindo a mim e luizão.
– Aí é que está a graça! – Respondi, mesmo sabendo que ela não compreenderia. Fiz um rápido retrocesso e conclui comigo mesmo que se não fosse assim, eu não teria feito metade do que já fiz até hoje.
Devemos ter levado uma hora nessa investida e não percorremos quase nada, então, a melhor opção ali agora era montar o acampamento e procurar o caminho no dia seguinte com luz. Não sabendo como seria o dia posterior, não jantei e fui dormir vestindo todas as roupas que eu levei.Relógio com termômetro marcando -4.5
Dormi das oito às três da manhã e acordei com frio nos pés, eu estava com a calça de lycra e neoprene, uma de tactel, uma sunga, e uma bermuda, fora camisa e casacos, mas só tinha um par de meias, que apesar de serem bem grossas e quentes, eram as mesmas que eu havia caminhado e pareciam úmidas. Os sacos plásticos que embalei meus pés, estavam molhados por dentro. Reparei eles encostavam na parede da frente da barraca que estava muito gelada e resolvi ver qual a temperatura marcava no relógio que eu deixara do lado de fora. Me surpreendi quando o peguei com uma fina camada de gelo que o deixava todo branco e limpei o vidro para poder ler os 4 graus e meio negativos mostrados no display! Voltei pra dentro da barraca e dormi mais três horas, novamente conferi o relógio que agora marcava -6,5! Mas em breve esquentaria e saí para inspecionar o local e tentar achar uma trilha. Luizão já estava acordado e também foi andar, mas em direção oposta a minha, no sentido do vale. Eu atravessei o rio e novamente tentava transpor o morro à nossa frente, mas desta vez fui contornando-o pela esquerda e escolhendo os caminhos mais abertos. À medida que eu ia subindo, o grosso casaco que antes me deixava bem confortável, agora esquentava violentamente, me fazendo transpirar. Calango na mochilaTirei-o e passei a trazê-lo pendurado. Após algumas rampas de pedra e pequenas escaladas, finalmente cheguei no topo, que começava a receber os primeiros raios e sol da manhã. Não trazia o mapa e tomei um susto quando um novo vale se descortinou na minha frente! Depois de um tempo entendi que não era um novo vale e sim o mesmo que nós estávamos. Eu tinha contornado muito o morro e galgado ele por trás. De lá de cima, entendi todo o relevo como se observasse a própria carta topográfica. Vi nossas barraquinhas, os rios e finalmente a trilha cortando o vale e subindo na direção que Luizão tomara. Gritei para ele e ele confirmou que encontrara a trilha. Do topo da montanha, vi que daria para seguir pela sua crista, na direção do acampamento do terreirão, mas depois de caminhar nesta direção por um tempo resolvi descer em direção às nossas barracas para levantar logo o acampamento. Minha descida levou uma hora aproximadamente, pois novamente me encontrava lá brigando com a vegetação, me arrependi de não ter voltado pelo mesmo caminho. Olho arranhado, braços cortados e um pouco cansado, fora os lábios rachados e o rosto queimado, começamos a arrumar nossas coisas e comemos o que sobrou de comida. Leite e chocolate com farinha láctea e mel regado com suco de caju sem açúcar para o café da manhã. Depois de descoberta a trilha, foi relativamente fácil, uma hora depois eu já estava chegando no alto das montanhas, no Terreirão. Xanda teve alguns problemas com pressão baixa e comeu o único miojo que restara cru junto com o tempero em pó que continha sal.
Depois que chegamos ali, foi engraçado ver que sofremos tanto para chegar ali tão perto. Se pelo menos já tivéssemos feito a trilha antes, mesmo no escuro poderíamos ter chegado. Mas o dia anterior tinha sido o que eu mais gostara. A trilha para a volta foi tranquila, tomamos um banho congelante nos banheiros do camping da Tronqueira, onde estava estacionado o carro e rapidamente iniciamos a longa viagem de volta para matar nossa fome de dois dias numa Churrascaria no Rio.

 

Pico Cristal
Pico Cristal

 

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