Cume
No fundo da greta, não levei mais do que alguns instantes para perceber o que havia acontecido e que eu me encontrava ileso. Confesso que achei até divertido! Mas tratei de sair rapidinho daquele buraco usando o piolet para auxiliar a vencer a borda da greta.Como não teve jeito, contornei a greta até achar um local mais estreito para cruzá-la.A essa altura, os dois andinistas já desciam do cume, usando a mesma técnica que usaram para subir, com um assegurando a descida do outro com a corda. Comecei a ficar preocupado, pois eu estaria por minha própria conta no último trecho mais vertical. A dupla já havia chegado numa espécie de platô que separava a parede em duas partes. Uma rampa, por onde eu chegava, e os últimos 120 metros com uma inclinação de 45 a 60 graus.Esforcei-me para alcançá-los ainda com a esperança de filar uma barrinha de cereal, mas ao continuar sua descida, a dupla tomou uma outra direção, se afastando de mim, que subia a rampa em linha reta em direção ao platô. Quando lá cheguei, eles já estavam a uns 50 metros distantes e mais abaixo. Achei estranho, que, sendo o rapaz da estação de esqui, ele não tivesse se dado ao trabalho de esperar 10 minutos para trocar algumas palavras. Eu observava os dois se distanciando quando um deles levantou o braço acenando, parecendo expressar alguma preocupação. Interpretei com um “Tudo OK?”. Acenei em retorno imaginando que ele entendesse como um “Sim, OK.” e me concentrei novamente no meu objetivo.Eu chegara num ponto onde eu precisava decidir se continuaria, enfrentando aquele último desafio ou retornava, levando em consideração os riscos e o avançado da hora. A opção de retornar já frequentava meus pensamentos nas últimas horas e eu estava com um medo danado daquela última rampa mais inclinada.Mais para saciar minha curiosidade do que para alcançar o topo, iniciei a escalada com redobrada precaução. Queria saber quais as dificuldades que eu teria e me posicionava de frente, cravando o piolet como quem escala uma parede de 90 graus de inclinação. Chutava a neve várias vezes com meus crampons até me certificar que cavara um sólido apoio para meu pé. Numa parede de rocha, equivaleria a uma escalada de segundo grau, fácil, mas que poucos costumam fazer sem cordas e sem um parceiro. Na neve, com a mesma inclinação, graças à características da neve e com o auxílio dos crampons, é possível escalar caminhando de lado em ziguezague e usando o piolet como um bastão, na posição conhecida como marcha. Eu, sozinho naquela neve mole, preferia ir de frente, como quem escala uma cascata de gelo, empunhando e cravando o piolet como uma picareta com a mão direita e apoiando a mão esquerda na neve, que já encharcava minhas luvas de fleece. Comecei a me arrepender de não ter comprado uma luva impermeável por 40 reais na loja da estação de esqui. Ao mesmo tempo em que ganhava altura. Logo, minha única opção era seguir pra cima procurando não olhar muito pra baixo. Em alguns trechos a inclinação aumentava, mas depois voltava aos seus 45, 50 graus. Os últimos metros foram derradeiros, mas finalmente eu chegava à borda do topo do vulcão. Lá tive uma surpresa. Uma última greta gigante praticamente separava toda a parede, por onde eu subi, do resto do vulcão. Lembrei-me da “unha”, uma placa de rocha encostada no pico da Serra dos Órgãos chamado “Agulha do Diabo”.Comecei a imaginar como eu faria pra atravessar aquela larga e profunda greta, ao mesmo tempo em que eu procurava rastros na neve que indicaria o que os escaladores que lá estiveram antes de mim teriam feito. Mas as marcas na neve davam a entender que eles tinham ficado por ali mesmo! Comecei a caminhar para a direita, pois me lembrava de fotos cuja rota era assinalada contornando a parede para a direita e subindo talvez pelo fundo da greta. Aproximando-me do final da grande placa de gelo, verifiquei que um desmoronamento de neve unia os dois pontos e decidi arriscar por ali. Com um medo danado, rastejei pela neve, de forma que meu peso fosse distribuído pela maior área possível, almejando a parede oposta para cravar o piolet. E assim fiz logo que a alcancei. Agora eu precisava transpor uma pequena parede de um metro e meio para finalmente pisar no imenso platô que era o cume do vulcão. A tarefa era realmente simples mas a profunda greta do meu lado esquerdo e o abismo alguns metros à minha direita me fizeram tomar alguns procedimentos para evitar algum acidente. Cravei a estaca de neve no platô, acima da parede, e fixei um parafuso de gelo para distribuir meu peso entre essas duas ancoragens. Fixei-me com uma fita ao meu bauldrier – o cinto-cadeirinha – e venci esse último lance.

Eu estava agora realmente no topo do vulcão e procurava rastros de pegadas para que eu caminhasse com mais segurança. Eu havia lido informações de que os vapores daquele vulcão, ainda em atividade, criavam uma grande gruta de gelo. Tinha visto fotos incríveis de um alpinista explorando a imensa gruta e uma das minhas intenções iniciais era encontrar essa gruta. Mas agora, não encontrando nenhuma pegada anterior às minhas, comecei a imaginar que buracos gigantes poderiam estar escondidos sob aquela camada de neve. Caminhei somente mais uns trinta metros para me aproximar mais do centro da cratera coberta de neve. O suficiente para fazer algumas fotos. Já era hora de pensar na descida. Mesmo sabendo que eu teria ainda umas 4 horas de luz, eram 18 horas da tarde e o sol quase na linha do horizonte assustava.
Relatou pela metade ou não subiu ?
Olá, não sou escalador, então achei muito interessante o seu relato sobre as belezas do Osorno. Ainda assim, não pude deixar de pensar que essa aventura foi um pouco temerária e arriscada…