Caindo na greta
Quando a ladeira se tornou mais plana possível, já era noite e descarreguei meu peso ali mesmo. Para armar a barraca, eu precisava antes aplainar a neve com meu piolet no local onde ficaria a barraca. Foi meio complicado de fixa-la na neve, pois não muito profundo, minhas estacas encontravam rocha dura e no final ela ficou meio molenga. Nada que fosse problema, já que não ventava!
Coloquei tudo para dentro e me preparei para dormir. Já dentro do saco de dormir, me deu uma tristeza. Não tinha nem uma bala pra chupar! Comecei a revirar a mochila em busca de algum alimento de outras viagens esquecido dentro de algum compartimento. Procurei por um nécessaire que costumava ter umas balas de hotel com uns quatro anos de idade, mas não trouxera. Talvez eu tivesse a sorte de ter um pacote de macarrão instantâneo ou sopa dentro da panela. Fui em busca do meu conjunto de panelas, na pior das hipóteses, eu rasparia o resto de comida que sempre deixo, quando esqueço de lavá-las. Parecia até piada, mas, justo naquela ocasião, elas estavam lavadas, totalmente limpas. Eu não me conformava como não existia nada orgânico que eu pudesse ingerir naquela situação. Passou-me pela cabeça comer o papel com fotos e informações da escalada que eu tinha imprimido, mas eu havia almoçado naquele dia e não era o caso pra tanto extremo. Guardei o papel para depois. Conformei-me, e me programei para esquecer de qualquer sensação de fome no dia seguinte, pois seria duro. Dormi sem nem beber água.
Coloquei meu relógio para despertar às 5:30 h. Em anos, nunca consegui acordar com o fraco alarme dele, mas era a única coisa que eu tinha pra isso. Eu estava sem celular.Igor, o funcionário do CONAF, me instruíra a esperar a dupla de escaladores para segui-los, mas ninguém sabia a hora que eles passariam. Eu havia perguntado que horário seria bom para iniciar a escalada e Igor me respondera que umas sete da manhã. Achei meio tarde, pois geralmente começamos a subida de montanhas nevadas ainda de madrugada, ou até mesmo na noite anterior, para aproveitar a neve e o gelo firmes. A escalada deveria ser bem rápida e simples. Mas quando ele disse sete horas, me perguntei se era partindo lá da estação de esqui ou do acampamento base La Olla, uma hora depois. Por esses e outros detalhes, coloquei o relógio para 5:30. Além disso, Igor me recomendara deixar todas as minhas coisas preparadas e guardadas antes de partir para o cume. Eu levaria um tempo desmontando acampamento e arrumando mochila.Foi um pouco chato dormir no platô irregular que eu cavara na neve e por várias vezes escorreguei e acordei para retornar ao meu isolante térmico. Numa destas vezes, meu pé, dentro do saco de dormir, ficou fora da proteção deste colchonete e, em contato com o plástico do piso da barraca, me fez acordar com frio. Olhei para o relógio e marcava 5:15 da madrugada. Eu ainda tinha mais 15 minutos até o alarme despertar e resolvi aproveitar. Cochilei mais um pouquinho, mas quando voltei a olhar o relógio já eram sete horas da manhã! Levantei assustado e sai da barraca. O céu já estava claro e comecei a procurar por algum montanhista ao longo do caminho. Não avistei ninguém. Resolvi então inspecionar o caminho para tentar identificar pegadas recentes. Eu estava um pouco fora do caminho padrão e caminhei 20 a 30 metros até a rota normalmente mais usada. Não identifiquei nada.Voltei então para meu acampamento, ainda tentando descobrir o que fazer.Teriam começado bem mais cedo e passado por outro local? Isto explicaria não terem me acordado ou não terem deixado rastros. O rapaz do clube de esqui sabia que eu iria subir, ele teria me chamado se tivesse me visto. Desta forma eu teria que decidir se tentaria encontrar seus rastros. Não seria tão seguro, uma vez que talvez eles nem soubessem que eu os seguiria. Talvez ninguém tivesse passado por ali ainda. Se eles começassem a andar da estação ou do acampamento base as sete da manhã, como disse Igor, ainda não teriam passado por mim. Neste caso, seria mais prudente aguardar mais um pouco para ver se eu encontrava alguém. Mas havia ainda a hipótese de terem desmarcado a escalada e não haver mais ninguém na montanha naquele dia, além de mim. Isto seria o mais arriscado, caso eu resolvesse subir sozinho. Eu poderia também ser punido por fazer a subida sozinho.Comecei a desmontar minha barraca, arrumando minhas coisas na mochila. Eu dormira com a vestimenta que eu usaria na escalada e calcei também as botas duplas e os crampons. Sempre olhando a ladeira de onde eu viera, não avistava ninguém. De vez em quando eu olhava para o caminho acima tentando perceber a rota de subida ou avistar alguém, mas só conseguia ver a pontinha do cume e o final da escalada.

Ainda não guardara a minha barraca, quando vi dois pontinhos pretos na rampa final do vulcão contra a luz da aurora. Só faltava essa! Parei por alguns minutos tentando descobrir se eles se moviam até que finalmente tive a certeza que eles se deslocavam no perfil do vulcão. Putz! Eles deviam estar horas à minha frente! Seria certo eu seguir seus rastros e escalar o vulcão sozinho? Bom… Igor me disse para ir atrás da dupla, não disse a que distância! Além disso, perguntei se eu precisaria estar encordado – preso à ponta de uma corda que estaria presa a outro escalador -, e Igor não fez disto um detalhe obrigatório. Apressei-me para terminar de arrumar meus equipamentos, que ficariam ali enquanto eu escalava, e quando me vi iniciando a subida rumo ao topo do Osorno, já eram 10 horas da manhã! Muito tarde. Nem pude aproveitar muito o visual do alvorecer, com a sombra do vulcão se esparramando pelos lagos patagônicos. Foi aí que eu percebi na língua de neve os pequenos furinhos dos crampons! Estava explicado. Caminhando de crampons no gelo duro da madrugada, os montanhistas fizeram marcas muito mais sutis que minhas pegadas na neve cremosa da tarde anterior. O caminho seguia agora pelo solo pedregoso e íngreme por mais uma hora até terminar no glaciar. Daí pra frente seria só gelo. Um pedaço de pau cravado indicava o local de entrada do glaciar. Não demorou muito tempo até eu me deparar com a primeira greta. Larga e com seus 15 metros de profundidade mais ou menos, exigia que eu me certificasse que alguém já a tivesse cruzado. Pegadas a cruzavam por uma espécie de ponte que na realidade era o espaço que separavam duas gretas muito próximas. Era mais parecido com um muro largo e alto, onde eu precisaria caminhar ao longo. Verifiquei um furo na neve, no inicio da ponte, que foi feito pelo piolet do escalador que montou a ancoragem para a segurança do outro que atravessou primeiro. Mais um indício de que aquele caminho fora usado com sucesso por alguém, o que não impedia que, na minha vez, aquela porcaria toda fosse abaixo com o sol de quase meio-dia amolecendo a neve.Nessa hora, é que me arrependo de não ter tido como me filmar, pois eu me deslocava como um velhinho, quase de quatro, me apoiando firmemente no piolet, como uma bengala e de olho no fundo da greta, procurando o local mais fofo e menos profundo para eu aterrissar caso aquilo tudo desmoronasse. Chegar do outro lado foi um alívio.Mais algum tempo depois comecei a me aproximar do ponto onde a parede ficava mais íngreme e havia uma parte sem neve. Os alpinistas demoravam um pouco no trecho final do cume, pois escalavam um de cada vez, enquanto um fazia a segurança do outro, liberando ou recolhendo a corda aos poucos através do freio. Comecei a confundir os rastros de passos com uns outros que eram feitos por rochas do tamanho de bolas de futebol que rolaram desta parte sem neve da parede íngreme e percebi preocupado que estes desmoronamentos eram bem recentes, pelo rastro fresco.
Eu me deslocava em diagonal, para contornar a parede sem neve pela esquerda, sempre prestando atenção nos alpinistas acima, para identificar a rota. Tive a impressão de que eles estavam subindo por um caminho mais difícil, mais íngreme. Pelas fotos que imprimi, achei que o caminho seria mais a oeste, mas eles progrediam pela face norte da montanha. Talvez em função da parede nua que nos deparávamos agora. Parede esta que se encontrava bem acima da minha cabeça.
Entre uma greta e outra, eu me deslocava lateralmente na base da rampa íngreme de pedras quando ouvi um ruído. Avistei uma rocha do tamanho de uma bola de basquete rolando violentamente da rampa em minha direção! Os instantes que se passaram foram longos e agi como um pino de boliche certamente o faria: não tirei os olhos do projétil e entendi que, apesar de passar muito próximo, ele não me atingiria. De qualquer forma o acompanhei com o máximo de atenção, caso ele mudasse sua rota, quicando contra a neve, até que passou a dois metros do meu lado direito assobiando como uma bala de canhão.
Tratei de me movimentar o mais rápido que eu conseguia sem tirar os olhos da área de onde rolara a pedra. Agora aqueles 100 m da base da parede nua me pareciam intermináveis. Outra pedra se desprendeu lá de cima e desta vez usei a técnica do patinho da barraquinha de tiro ao alvo: continuei caminhando enquanto a pedra passava do meu lado esquerdo, a uns três metros de distância.A essa altura a sede me torturava, minha boca estava completamente seca e pastosa e minha garganta se fechava e doía quando eu tentava engolir alguma coisa que lembrava saliva. Eu resistia em comer neve, tentando achar alguma água de degelo. A fome não me incomodava. Para falar a verdade eu tinha me esquecido dela. Tinha esperança também em cruzar com os alpinistas à frente, descendo, para pedir um pouco de água ou algo para comer.Subindo na direção deles, de repente me vi numa rampa íngreme, de terra e pedra com uma camada de gelo podre por cima. Comecei a escalar na diagonal com o auxílio do piolet em posição de marcha e, em alguns momentos, o gelo se quebrava sob meus pés em forma de grandes placas que pareciam que deslizariam abaixo comigo em cima. Comecei a praguejar aquele caminho, que certamente não havia sido usado por ninguém antes de mim enquanto subia em ziguezague, quando vi aquela maravilhosa cachoeirinha que descia numa canaleta pela íngreme parede. Enchi a barriga e minha garrafa de água e voltei a subir mais aliviado. Não avistava mais os escaladores acima de mim, depois que eles fizeram a curva e chegaram no platô do cume, quando cheguei numa greta mais complicada de atravessar. Parecia ter uns 8 metros de profundidade, a parede da borda onde eu me encontrava tinha uma inclinação que formava uma espécie de rampa até o fundo e a borda oposta da greta era mais alta um metro e meio mais ou menos. No fundo dela, à esquerda, vi umas formações que lembravam a entrada de uma gruta. Parecia muito comprida para contorna-la sem perder muito tempo. Na parte mais larga deveria ter uns 4 metros, mas na parte mais estreita, um pouco mais de um metro. Era justo nesta parte que a neve que escorria da encosta parecia ter formado uma estreita ponte de gelo que encontrava a borda onde eu estava. Mas aquela ponte extremamente fina não me inspirava nenhuma confiança e, imaginando despedaça-la, golpeei com o piolet o meio dela. O piolet fez um furo, mas a ponte de gelo permaneceu firme, para minha surpresa. Analisando um banco de neve que repousava abaixo da ponte, não achei que seria muita loucura tentar atravessar por aquele fiapo de gelo e arrisquei os primeiros passos. Não precisaria muito, mais um passinho bem suave já me levaria para o outro lado e eu empunhava a picareta de neve pronta para cravar na outra borda, quando percebi entusiasmado, que aquela peça de gelo de 40 centímetros de largura e 10 centímetros de espessura me aguentava solidamente.No instante seguinte, eu estava em queda livre e aterrissava no banco de neve fofa dois metros abaixo da ponte, que desintegrara.
Relatou pela metade ou não subiu ?
Olá, não sou escalador, então achei muito interessante o seu relato sobre as belezas do Osorno. Ainda assim, não pude deixar de pensar que essa aventura foi um pouco temerária e arriscada…